Sindicato dos Delegados de Polícia Federal do Estado de São Paulo

 

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A INDEPENDÊNCIA DO BRASIL – ALGUNS EPISÓDIOS NÃO CITADOS NOS LIVROS ESCOLARES - PARTE 2
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Aparecido Lopes Feltrim
Delegado de Polícia Federal Aposentado

A INDEPENDÊNCIA DO BRASIL – ALGUNS
EPISÓDIOS NÃO CITADOS NOS LIVROS ESCOLARES -
PARTE 2

A Independência do Brasil decorreu menos pela vontade dos brasileiros de que das divergências entre os próprios portugueses, tendo sido produto de uma “guerra civil entre portugueses” (Sérgio Buarque de Holanda). “A Revolução foi concebida por completo com um sentido português e unicamente por fatores portugueses”, escreveu o diplomata britânico Edward Thornton, ainda no século 19.
Segundo Laurentino Gomes, é uma visão desfocada citar que a história da Independência limita-se às margens do Ipiranga, como se o restante do país não existisse ou todos os demais brasileiros fossem meros coadjuvantes de acontecimentos limitados à região compreendida pelas províncias de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O processo de separação de Portugal envolveu todo o Brasil e custou muito sangue e sacrifício às regiões Norte e Nordeste, onde milhares de pessoas pegaram em armas e morreram, pois a guerra da Independência durou 21 meses, entre fevereiro de 1822 e novembro do ano seguinte. O número de combatentes foi maior do que o das guerras de libertação da América espanhola, na mesma época. Só na Bahia, mais de 16.000 brasileiros e aproximadamente 5.000 portugueses trocaram tiros durante um ano e quatro meses (História da Independência na Bahia, Braz Hermenegildo do Amaral).
No Piauí, entre duzentos e quatrocentos brasileiros tombaram em cinco horas de combate na trágica e simbólica Batalha do Jenipapo, ocorrida no dia 13 de março de 1823.
No Pará, 256 homens morreram no dia 20 de outubro de 1823 no porão de um navio ancorado no cais de Belém e convertido em prisão improvisada sob o escaldante sol da Amazônia.
Dentro da proposta deste texto, vale lembrar que a declaração do “Fico”, segundo o historiador Tobias Monteiro e constante do edital publicado no mesmo dia, tinha redação diversa daquela propalada, sendo modificada misteriosamente no dia seguinte, com um novo edital em palavras mais enérgicas, mas a nova versão estava mais de acordo com as expectativas dos maçons do Rio de Janeiro, mentores do abaixo assinado, os quais também foram responsáveis por D .Pedro I aditar o título de “defensor perpétuo e protetor do Brasil”.
D. Pedro também não seguia com rigor as formalidades de conduta representada pelo seu importante cargo político. Na juventude, D. João VI o repreendeu ao descobrir que comprava cavalos comuns no Rio de Janeiro, marcava-os com selo da Fazenda Real de Santa Cruz e os revendia por um preço muito maior para pessoas que queriam ostentar proximidade com a Corte. O intermediário era o barbeiro do Palácio da Quinta da Boa Vista, Plácido Pereira de Abreu, com quem o príncipe repartia os lucros (Paulo Setúbal, as maluquices do Imperador).
Robert Walsh relatou que D. Pedro se dedicava a outras atividades lucrativas: fabricava cachaça, comercializada nos botequins cariocas; arrendava os pastos da Real Fazenda para descanso do gado que descia de Minas Gerais para o Rio de Janeiro e seus escravos cortavam o capim da fazenda e vendiam nas ruas da cidade. “Vivia maior parte do dia em companhia dos lacaios e criados, ou dos filhos destes, adotando sua gíria grosseira e obscena, salpicando a conversa de expressões que um homem bem educado não pronunciaria”, afirmou o biógrafo da Imperatriz Leopoldina (foto), Carlos Oberacker Jr.
O primeiro casamento de D. Pedro realizado como mandava a tradição, envolvia altos interesses estabelecidos pelas monarquias, após a queda de Napoleão, em 1815.
Assim, D. João VI precisava aproximar-se da Áustria e com isso D. Leopoldina aceitou o matrimônio sem qualquer queixa; saindo de Viena, em 3 de junho de 1817 já casada, chegando ao Rio de Janeiro, cinco meses depois, tendo oportunidade de saber tudo sobre o Brasil através de leituras e estudos geográficos. Encantada com o Brasil, tendo seu marido se apresentado como um príncipe encantado e não um homem rude, autoritário e infiel que enfrentaria tempos depois.
Em carta à sua irmã em 8 de novembro de 1817 disse : “Faz dois dias que estou junto com meu esposo, que não é apenas lindo, mas também bom e compreensivo(...) estou muito feliz”. “O meu muito querido esposo não me deixou dormir”, confidenciou ao pai no mesmo dia, insinuando que as noites do casal eram bastante animadas. (D. Leopoldina, Cartas de uma Imperatriz).
Nos três primeiros anos o casal era feliz. Passeavam a cavalo pela floresta da Tijuca, caçavam borboletas e observavam a natureza, acompanhava o esposo ao piano, jantavam em alas diferentes em razão de seus hábitos alimentares diversos. Entretanto, havia uma curiosidade: Na hora de dormir, D. Pedro mandava trancar e vigiar até o dia seguinte os aposentos da princesa.
O historiador português Eugênio dos Santos dá uma explicação: D. Leopoldina ficava trancada para que o príncipe não fosse surpreendido pela mulher nas suas famosas escapadas noturnas, já que o mesmo freqüentava as ruas, prostíbulos, vagueando pelos bares ou casas das amantes até de madrugada.
Com a presença da amante Domitila, no Rio de Janeiro, D. Leopoldina ia sendo ofuscada, humilhada em público, abandonada pelo marido, recebia cada vez menos dinheiro para mantença da casa e dos filhos, onde começou a murchar, atingida pela depressão, que ceifaria sua vida prematuramente. “Aos vinte e poucos anos era uma mulher envelhecida, deprimida e pouco vaidosa”, observou Maria Rita Kehl – (Leopoldina, ensaio para um perfil).
No dia 2 de dezembro de 1826, abortou o feto de um menino, estando na nona gravidez. Morreu às 10:15 hs do dia 11 de dezembro, um mês antes de completar trinta anos, não sem antes escrever sua última carta à sua irmã, Marquesa de Aguiar, às quatro horas da manhã de 8 de dezembro de 1826, três dias antes de morrer, parecendo confirmar uma agressão sofrida por D. Pedro, levando-a ao óbito:
“Há quase quatro anos (...) que por amor de um monstro sedutor me vejo reduzida ao estado da maior escravidão e totalmente esquecida do meu adorado Pedro. Ultimamente acabou de dar-me a última prova de seu total esquecimento a meu respeito, maltratando-me na presença daquela mesma que é a causa de todas as minhas desgraças. Faltam-me forças para me lembrar de tão horroroso atentado que será sem dúvida a causa da minha morte”. (D. Leopoldina, Cartas de uma Imperatriz)
A notícia de sua morte causou comoção pela cidade. O povo saiu às ruas em prantos. Escravos se lamentavam aos gritos: “Nossa mãe morreu. O que será de nós?”
A casa da Marquesa de Santos foi apedrejada, como culpada pelo sofrimento da imperatriz. Pelas cartas e bilhetes, sabe-se que o luto de D. Pedro foi mais aparente que real, pois já na noite seguinte ao regresso de sua viagem ao Rio Grande do Sul – onde acompanhava a Guerra Cisplatina -, D. Pedro foi enxugar as lágrimas na cama da Marquesa de Santos.
Com a morte de D. Leopoldina, com 29 anos, D. Pedro viúvo com cinco filhos e envolvido em vários escândalos, necessitava de um novo casamento para restabelecer seu prestígio junto a população. Assim, o Imperador incumbiu o Marquês de Barbacena, de sua confiança, a encontrar a nova pretendente, dentro de quatro requisitos: nascimento, beleza, virtude e cultura. Depois de oito princesas recusarem, ele desistiu de duas condições – a primeira e a quarta -, passando a exigir que a noiva fosse uma nobre bela e “virtuosa”.
Finalmente, surgiu a princesa Amélia, filha do príncipe Eugênio, enteado adotado por Napoleão Bonaparte. Assim, ao receber a descrição da noiva através do Marquês de Resende, seu amigo pessoal, D. Pedro tomou conhecimento que Amélia “tem um ar de corpo como o que o pintor Correggio deu nos seus quadros à rainha de Sabá. Valham-me as cinco chagas de N .S. Jesus Cristo, já que pelos meus enormes pecados não sou o Imperador do Brasil. Que fará o nosso amo na primeira, na segunda, e em mil e uma noite?”
Amélia contava com 17 anos de idade e o casamento ocorreu em Munique, tornando-se a segunda Imperatriz do Brasil : Amélia Augusta Eugênia Napoleona de Beauharnais, a princesa de Leuchtenberg e Eichstatt.
D. Amélia teve apenas uma filha com D. Pedro, a princesa Maria Amélia, nascida no exílio em Paris, em dezembro de 1831. Amélia faleceu aos 60 anos, tendo enviuvado aos 22 e dedicou o restante de sua vida à educação de sua filha, que morreu aos 21 anos, na Ilha da Madeira, com tuberculose.
N.A.- Quer conhecer algumas etapas da verdadeira história de nossa Nação, valendo-se de narrativas profundas e com vastas e importantes pesquisas? Pois leia as obras de Laurentino Gomes, 1808, 1822 e 1889; Do Império à República, de Sérgio Buarque de Holanda; O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro; Os Donos do Poder, de Raymundo Faoro; Luiz Carlos Prestes, Um revolucionário entre dois mundos, de Daniel Aarão Reis e A Verdade Sufocada – A história que a esquerda não quer que o Brasil conheça, de Carlos Alberto Brilhante Ustra.
Após tais leituras você poderá decidir se é verdadeiro o adágio popular que diz: “o povo brasileiro não tem memória”! Mas, para tanto, dispa-se de quaisquer convicções políticas e ideológicas, especificamente sobre as duas últimas indicadas.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
1- Tobias Monteiro, História do Império: a elaboração da Independência.
2- Isabel Lustosa, D. Pedro I.
3- Castellani, José. 1822: a fundação do Grande Oriente do Brasil, Caderno de Estudos Maçônicos, nº 28, 1996.
4- 1822, Laurentino Gomes.
5- 1808, Laurentino Gomes.
6- Cláudia Thomé – co-autora do Livro O Brasil como Império (Companhia Editora Nacional -2009)
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1/3/2015

 

 

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